SOBRE O TRABALHO ESCRAVO NA MODA… E EM TODA PARTE

Comportamento
20/12/2017

Ontem passei o dia fora mas fui bombardeada com notícias de que a Animale e a Abrand, marcas de um mesmo grupo, foram flagradas produzindo peças numa confecção com trabalho em condições análogas ao trabalho escravo. Era um grupo de bolivianos que trabalhava o dia todo – e a noite toda – e ainda dormia no mesmo ambiente. Havia cinco crianças no meio disso. Para uma peça de roupa, estes costureiros recebiam às vezes R$5,00 ou R$6,00 para produzir peças que chegavam a encostar nos 700,00 reais no ponto de venda. Vergonhoso e ultrajante, não só como ser humano, mas como consumidor também. A discrepância só aumenta o grau de indignação… 

Mas eu não vim aqui fazer uma caça às bruxas. Acho que as marcas já estão recebendo uma enxurrada de questionamentos e repreensões, felizmente. No entanto, eu não quero chover no molhado. Minha intenção é divulgar e, ainda que bastante leiga, trazer algumas questões para reflexão, aproveitando a onda de indignação coletiva. O trabalho escravo na moda não é nenhuma novidade. E não acontece só em lugares como Bangladesh, como é de se imaginar. Estas mesmas oficinas de grifes nacionais ficam em São Paulo, no epicentro econômico do país. Se num lugar muito pobre já é inaceitável, no Brasil é estapafúrdio. 

Apesar disso, sabemos que a fonte do problema não está numa marca x ou y, mas sim no processo como um todo. A cadeia de produção não é sequer terceirizada. Já passou para uma quarteirização. Ou seja, a marca delega o processo para uma confecção A, que delega para a confecção B, que compra da confecção C. Nisso, todo mundo tira o seu, sobre alguém que recebeu uma merreca pelo produto que entrega pronto. A cadeia de produção mais parece a extinta CPMF, com seu efeito cascata

  

Boicotar parece a resposta óbvia e simples, certo? Eu queria acreditar que sim, mas é muito pouco. Assim como meu boicote ao Woody Allen só faz diferença na minha consciência e não na liberdade bolso dele, como eu gostaria. E o buraco vai muito mais embaixo do que uma calça de grife. Meu iPhone, meu chocolate, nossos tênis… E se não está no produto final, o trabalho escravo pode estar na matéria prima. No minério, no tecido, ou em partes como o botão que fecha o punho da manga da camisa. A escala das coisas se tornou tão enorme e distante que já não sabemos o suficiente. As próprias marcas têm dificuldade de controlar todas as etapas e/ou usam isso para serem negligentes e fecharem os olhos. Vamos dar o benefício da dúvida, apesar dos pesares…

O que a gente pode fazer? Boicotar é uma opção sim. Mas acho que não basta. Além disso, não sei como ficaria a situação de quem mal recebe 5 reais ou das costureiras em Bangladesh (recomendo este documentário de 2013 da NPR sobre a produção de uma camiseta na escala global). Amancio Ortega vai ser o último a quebrar na hierarquia da Zara… Por isso acredito que o boicote é pouco e potencialmente nocivo – especulação minha aqui. O que precisa acontecer é uma força-tarefa mundial e nacional. Será que se as marcas fossem responsabilizadas criminalmente fariam uma fiscalização mais eficaz? Delegariam menos processos? Teriam um departamento dedicado a garantir que as condições de trabalho estão adequadas? 

É muito mais complicado do que demonizar uma ou outra marca. E temos que reconhecer que empreender aqui no Brasil é quase um ato de heroísmo. Mas diante de uma calça de R$5,00 sendo vendida a R$700,00, fica difícil enxergar por este lado. Acho que boicotar é válido, mas não resolve o trabalho escravo. Temos que pressionar, divulgar, dar voz às pessoas e brigar por mais fiscalização e responsabilização. Eu não sou nenhuma especialista, longe disso, mas tenho um espaço e estou usando para algumas destas coisas. Se você conhece alguém ou algum órgão que tem uma boa proposta ou solução, divulgue aqui também. Além disso, vamos acompanhar o caso mais recente e ver que medidas práticas as marcas envolvidas vão tomar. Uma nota não resolve nada… Vamos ver se seguirão o exemplo da C&A, que passou a monitorar bem de perto essa situacão. O que pensam sobre isso?

Beijos,

gabi

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  1. Gabriela Lopes Em 20/12/2017

    Parabéns pelo post, pelo ativismo e pela consciência!


    Responder

  2. Amanda Em 20/12/2017

    Não basta ser a MELHOR pessoa tratando de imagem na internet brasileira, ainda boicota Woody Allen. E MUITO orgulho.

    PARABÉNS

    Abs

    Amanda Pontes


    Responder

  3. Laura Em 21/12/2017

    Mais alguém que boicota Woody Allen, aleluia!
    Ótimo texto, Gabi! A gente tem que pressionar por mais fiscalização e punições severas para as empresas que utilizam trabalho escravo, principalmente em uma época do nosso Brasil na qual o governo quer esconder e censurar a lista que vinha sendo publicada anualmente pelo Ministério da Justiça das empresas autuadas por escravizarem seus funcionários. Acho que do lado do consumidor, nosso trabalho é divulgar esses casos e boicotar, sim. Só eu e você boicotando, não dá em nada, mas se uma massa crítica de consumidores aderirem, eles sentem. Fora que se o nome de uma marca for manchado com a pecha de “escravizador”, eles perdem dinheiro mesmo.


    Responder

  4. Priscila Em 22/12/2017

    Gabi
    Parabéns pela postagem tão lúcida!
    Minha mãe é costureira e sempre muito apaixonada pelo que faz e hoje em dia ela não se anima em montar a máquina e fazer uma barra, por um motivo muito simples: as pessoas não querem pagar o preço que ela cobra. As pessoas não querem pagar o preço cobrado pelo serviço.


    Responder

  5. Thais Em 22/12/2017

    Gabi, ótimo post e reflexão. Gosto muito do que você escreve.
    Acredito que boicotar seja pouco quando pensamos individualmente, mas quando você também passa a comprar de forma a valorizar quem não faz parte dessa cadeia (por exemplo,o produtor pequeno, empresas mais transparentes sobre o processo de frabicação, fabricação mais responsável, pagamento justo aos trabalhadores…), se interessa em saber de onde veio a roupa que você veste, deixa de fazer compras desnecessárias…imagina só! E é esse o poder que o consumidor tem.
    Tem um documentário maravilhoso no Netflix chamado “The true cost”. Vale muito a pena.
    Um grande abraço!


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